A cidade e as crianças: por que quem vive em centros urbanos tem menos filhos?

Crianças brincam em parque de Tóquio, cidade de maior população do mundo

Crianças brincam em parque de Tóquio, cidade de maior população do mundo

Países desenvolvidos têm registrado queda nas taxas de fecundidade nas últimas décadas. O resultado é que, neste ano, pela primeira vez na história, a população mundial de crianças com menos de 5 anos será ultrapassada pela faixa com mais de 65 anos de idade. Parte do fenômeno se explica pelo crescimento das cidades, que já abrigam mais da metade dos habitantes do planeta e continuarão recebendo mais e mais gente nas próximas décadas.

Dados comprovam que as pessoas que vivem em centros urbanos têm menos filhos do que as que moram em subúrbios ou zonas rurais. Para se ter uma ideia, enquanto a taxa de fecundidade no centro de Londres é de 1,5 filho por mulher, no subúrbio é de 2 filhos por mulher. E isso mesmo quando contabilizadas as mulheres que se mudaram do centro para o subúrbio justamente para criar seus filhos.

As razões para isso são várias. Em primeiro lugar, há o custo de vida na cidade, superior ao dos subúrbios ou do campo. Uma criança consome, em média, de 20% a 30% do orçamento familiar. Além dos custos mensais, aumenta a demanda por espaço, às vezes em locais onde o preço dos imóveis não cabe no bolso das famílias.

Crianças também requerem cuidado integral, o que significa que o pai ou a mãe terão de abrir mão de trabalhar fora, reduzindo ainda mais sua renda, ou terão de contratar quem cuide de seu bebê. Os mais sortudos contam com a ajuda dos avós para as tarefas diárias, mas mesmo essa facilidade se torna cada vez mais rara em função do envelhecimento dos pais. Quando um bebê finalmente chega na família, os avós já se ressentem da falta de saúde e energia para contribuir no dia-a-dia.

Há ainda a sedução da vida agitada da cidade grande, o que faz com que muitos optem por abrir mão de ter filhos em vez de deixar de frequentar restaurantes, festas e um riquíssimo circuito cultural. A pressão para aumentar a família também é menor sobre os casais da cidade, uma vez que é mais difícil encontrar quem tenha uma família numerosa do que quem tenha tido uma ou mesmo nenhuma criança. Nos subúrbios ou no campo, a presença de famílias grandes é muito maior, o que na prática funciona como um incentivo para outros trilharem o mesmo caminho.

Alguns países encontraram na migração uma alternativa para aumentar sua população de crianças. É o caso do Japão, que no último ano facilitou a entrada de imigrantes, especialmente brasileiros, para reverter sua baixíssima taxa de fecundidade. A preocupação é fácil de ser explicada. Poucas crianças e muitos idosos significam um futuro de sistema previdenciário sobrecarregado e menor arrecadação de impostos para o governo. Somado a isso, está o fato de o Japão ser um dos mais urbanizados do mundo e de Tóquio concentrar a maior população urbana do planeta (37 milhões de pessoas).

Nas cidades brasileiras, a presença das crianças também se reflete na mudança dos espaços urbanos. O esforço dos pais em protegê-las muitas vezes se traduz em residências com muros altos e na multiplicação dos condomínios clube, equipados com áreas de lazer. Tal infraestrutura permite que crianças moradoras desses locais passem semanas sem andar pela rua, transitando apenas entre o parquinho do prédio, o carro e a escola. E é difícil criticar esse modo de vida quando os índices de (in)segurança parecem justificar todos os temores e mais um pouco. Contar apenas com a sorte para proteger o que há de mais valioso no mundo não soa razoável para muitos pais. E quem pode julgá-los? Por outro lado, não podemos esquecer do paradoxo apresentado por Jane Jacobs em 1961: quanto maior o isolamento nos prédios e casas murados, maior a insegurança nas ruas, pois estas perdem seu principal ativo contra a violência, a constante movimentação das pessoas.

Se ter filhos parece desafiador para quem vive na cidade, encontrar um meio-termo para criá-los soa igualmente difícil. Mas é na cidade onde poderão ter melhores oportunidades, sejam de educação, de emprego ou culturais. Assim, sociedade e governos precisam estar atentos para que, em vez de incompatíveis, cidades e crianças se beneficiem cada vez mais da existência umas das outras.

 

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