China investe em “pedestrinização” e cria ruas onde carros são proibidos. Seria viável para São Paulo?

The Bund, em Xangai: pedestres tomam o espaço dos carros (Montagem do Cityfix com fotos de Mat Booth/Flickr e SeanSheng/Pixabay)

The Bund, em Xangai: pedestres tomam o espaço que era dos carros (Montagem do Cityfix com fotos de Mat Booth/Flickr e SeanSheng/Pixabay)

Os chineses encontraram uma forma de melhorar o trânsito, o comércio e a qualidade de vida das pessoas e ainda baixar a poluição do ar. A fórmula mágica responde pelo nome de ruas exclusivas para pedestres, onde os carros são proibidos.

A acelerada urbanização nos últimos anos (leia mais aqui), num país que só em 2012 deixou de ter maioria rural, cobrou como fatura  a crescente piora dos níveis de poluentes num ar que beira o irrespirável e a diminuição dos níveis de atividades físicas na rotina dos chineses. Junto com a sujeira, paira no ar uma série preocupação com a saúde pública. Tirar carros das ruas e, ao mesmo tempo, criar espaços para a prática de caminhadas e corridas surgiram como uma solução casada para o problema.

Atualmente, mais de cem cidades chinesas têm pelo menos uma rua exclusiva para pedestres, numa onda apelidada de “pedestrinização”. Em Pequim, a rua Wangfujing, não à toa chamada de paraíso das compras, recebe mais de 250.000 pessoas por dia. Em Xangai, a cidade mais cosmopolita da China, a Nanjing Road comprova a boa aceitação da proposta, com mais de 2 milhões de pessoas por dia. Outro caso de sucesso por lá é o The Bund, permeado por um imenso deck voltado para o rio Huangpu. As margens têm vias de 7 quilômetros de extensão pelas quais carros não passam. Espaços como esse do The Bund são resultados de uma ampla reforma dos espaços públicos de Xangai realizada entre 2008 e 2010, em que se buscou priorizar os pedestres da cidade, algo que ocorre em várias outras cidades. Em Nova York, por exemplo, o Times Square, um dos pontos mais concorridos da cidade, foi fechado para a passagem de carros. Mesas e guarda-sóis deram um clima praiano a uma das paisagens mais cosmopolitas do mundo.

Curioso que essas medidas se multipliquem em diversos países, enquanto no Brasil a redução de velocidade nas marginais e avenidas paulistanas, agora limitadas ao máximo de 50 quilômetros por hora, causaram forte reação contrária de boa parte da população. Não há nem clima para propor que, a exemplo da China e dos EUA, determinadas vias de São Paulo sejam bloqueadas para carros e se tornem grandes bulevares de pedestres.

Planta imaginária mantém a mesma proporção do espaço ocupado por carros e pessoas nas cidades (Foto @TinyHouseTalk)

Planta imaginária mantém a mesma proporção do espaço ocupado por carros e pessoas nas cidades (Foto @TinyHouseTalk)

Para tentar ilustrar essa relação, que se repete também em várias cidades americanas, o site TinyHouseTalk criou uma planta de uma casa imaginária que respeita as mesmas proporções do uso de espaços existente nas cidades, ou seja, uma garagem muito maior do que o resto dos cômodos, a exemplo do espaço ocupados pelas pistas de asfalto na comparação com calçadas e outras áreas públicas. A provocação gerou uma série de comentários nas redes sociais.

Claro que medidas restritivas ao automóvel embutem uma série de efeitos colaterais. O trânsito das proximidades piora, o acesso fica confuso inicialmente, os moradores tendem a preferir outras vizinhanças, e o comércio passa a dominar os imóveis locais. Aos poucos, as pessoas se habituam a fazer compras a pé e a ter a rua como uma alternativa muito mais eficiente e agradável do que a esteira de academia. O comércio e a economia urbana agradecem, o ar melhora e a saúde das pessoas também. Surge um lugar para se praticar o melhor esporte já criado pela humanidade, o de sentar e ver a vida passar. Já o trânsito… bom, o trânsito não some, mas o fato de mudar de lugar ajuda a fazer o mais difícil, provocar uma reflexão sobre a vida que levamos.

Times Square sem carros, quase uma praia urbana (Foto: New York City Department of Transportation)

Times Square sem carros, quase uma praia urbana (Foto: New York City Department of Transportation)

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