O ano em que o projeto Cidade Limpa começou a acabar

No metrô, onde tudo pode: média de uma mídia por minuto (Foto Mariana Barros)

No metrô, onde tudo pode: média de uma mídia por minuto (Foto Mariana Barros)

Este ano caminha para consagrar-se como o começo do fim do projeto Cidade Limpa. As placas publicitárias banidas por lei em 2007 pela gestão de Gilberto Kassab vêm ressurgindo pouco a pouco como um cupim urbano. Postes e muros já exibem cartazes, enquanto fachadas comerciais ampliam seus letreiros. Para complicar, a administração Fernando Haddad resolveu investir pesado em mobiliário urbano com suporte para publicidade, o que é previsto e liberado pela legislação.

O intuito principal dos novos pontos de ônibus parece ter sido justamente o fim publicitário. Afinal, quem pega ônibus já percebeu que o novo mobiliário não oferece abrigo da chuva nem do sol, tampouco informa sobre itinerários. Soma-se a isso a volta dos relógios de rua, retomados num momento em que qualquer cidadão, de qualquer classe social, carrega no bolso um celular exibindo as horas. E mais: muitos levam ainda modelos capazes de informar a temperatura externa a cada hora que passa. Mais uma vez, o objetivo parece ter sido mais a propaganda do que o esforço em nos ajudar a ser pontuais ou a sair de casa com uma roupa apropriada para o clima.

No metrô, onde a poluição visual sempre rolou solta, a coisa degringolou de vez. Corredores com laterais inteiramente adesivadas por metros e metros  alardeiam o lançamento de filmes, jogos e séries de TV. Há trens igualmente adesivados em boa parte da superfície externa dos vagões, portas de vidro voltadas à organização do embarque estampadas com chamadas publicitárias, escadas rolantes com dezenas de cartazes enfileirados, pilastras de concreto envelopadas por slogans e imagens e televisores nas plataformas em que dá para assistir até ao resumo das novelas. Mesmo dentro dos trens a quantidade de mensagens é altíssima. Telas exibem notícias, horóscopo e resultados de futebol, vidros são cobertos por anúncios e cartazes avisam sobre processos seletivos de faculdades e tratamentos dentários. Isso sem falar nas catracas, estampas com marcas de chocolate e afins. Em uma conta rápida, tive o contato com dez tipos de mídia diferentes num trajeto de dez minutos, numa assustadora média de uma propaganda por minuto.

É legítimo que a prefeitura ou o governo do estado queiram arrecadar dinheiro com publicidade. O problema está na permissividade, que coloca em risco a paisagem conquistada e milagrosamente mantida ao longo dos últimos sete anos. São Paulo é uma cidade caótica, um emaranhado de prédios sem espaços públicos ou pontos de referência visual que aliviem um pouco o cenário frenético. Paulistanos que visitam cidades brasileira onde os espaços publicitários não são regulamentados percebe a diferença na hora. O bombardeio de slogans acaba tornado-se um desgaste a mais para os cidadãos que caminham pelas ruas e pegam ônibus e metrô. Apenas com vidros do carro fechados e devidamente insufilmados é que dá para fazer vista grossa para isso.

Corredor da integração das linhas amarela e verde: propaganda por todos os lados (Foto Mariana Barros)

Corredor da integração das linhas amarela e verde: propaganda por todos os lados (Foto Mariana Barros)

1 Comment

  1. Regina Monteiro disse:

    Ola Mariana, não vamos deixar o Cidade Limpa acabar!!!!!!!
    O que falta é fiscalização,
    A sociedade tem que cobrar fiscalização sempre, em todos os itens da cidade!
    Abraços
    Regina Monteiro

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