Esquina: A importância do tema cidades tem aproximado arquitetura e política no mundo todo, mas não no Brasil

O jornalista Raul Juste Lores e o arquiteto Martin Corullon participam do Esquina, em São Paulo

O jornalista Raul Juste Lores e o arquiteto Martin Corullon participam do Esquina, em São Paulo

Na última terça (4), o arquiteto Martin Corullon e o jornalista Raul Juste Lores participaram do Esquina especial sobre arquitetura contemporânea. O Esquina é uma evento gratuito sobre cidades e arquitetura que acontece até novembro na Livraria Cultura de Artes do Conjunto Nacional, em São Paulo. Para saber mais e acompanhar a programação, basta curtir a página do Esquina no Facebook.

A relação entre arqutietura e política esteve presente em quase todas falas. Martin Corullon, sócio do Metro Arquitetos e que começou sua carreira como colaborador de Paulo Mendes da Rocha, afirmou que, ao produzir cidade e interferir na vida das pessoas, a arquitetura desempenha um papel político. Já o jornalista Raul Juste Lores, que acaba de retornar de uma temporada de três anos e meio nos Estados Unidos como correspondente do jornal Folha de S. Paulo, falou sobre a influência dos arquitetos junto ao poder público, algo comum no mundo, mas não no Brasil. Há no país uma classe política totalmente desinteressada em arquitetura, arquitetos com dificuldade de dialogar com a sociedade e resistentes a influenciar os políticos e, por fim, uma mídia que não consegue traduzir para o público quais as questões mais relevantes nessa área e a crescente importância do tema cidades no cenário mundial.

Martin Corullon iniciou sua fala a partir do livro o Arquitetura em Diálogo, lançado neste ano, que organizou e escreveu a apresentação. Contendo dez entrevistas feitas nos anos 1990 pelo espanhol Alejandro Zaera-Polo com estrelas da arquitetura mundial, a obra revela o quanto a arquitetura naquela época tomava emprestado discursos de outras disciplinas e de como hoje ocorre o inverso. “Todas as disciplinas estão falando do universo da arquitetura que, em última análise, é a própria cidade.  Porém o debate que toca a arquitetura está muito deslocado da disciplina da arquitetura”, diz Corullon.

 

Ele relembrou a Bienal de Arquitetura Veneza de 2006, baseada em estatísticas e leituras sociais que tomaram o centro da discussão e deslocaram a arquitetura para um papel secundário, como se não fosse um agente que de fato pudesse participar da produção da cidade. “Será que o único caminho para a arquitetura é desaparecer como disciplina, como forma de produção dos espaços? Talvez. Grupos que se reúnem, há associações de bairro, e esse modo de produzir cidade de certa forma rebaixa a arquitetura de exceção, de excelência, de alto nível que essa geração de arquitetos estrelados fez, por exemplo.”

Segundo Corullon, é possível reivindicar para a arquitetura um papel político que não seja necessariamente o de produzir edifícios icônicos, tal qual a geração de arquitetos estrelados fez. “A arquitetura como profissão não pode ser política, pois promove o consenso, quem trabalha com isso sabe que é preciso equacionar muitas vontades. Como o consenso é o contrário do conflito, a atuação política fica rebaixada nesse contexto. Por outro lado, toda forma que é posta na cidade é necessariamente política, porque implica um modo de vida. Todo produto da arquitetura é necessariamente político. Vivemos esse paradoxo, uma profissão que não pode ser política, que tem de produzir consenso, e o produto dessa atividade é inevitavelmente político.”

De acordo com ele, o tema cidades explodiu no debate público logo depois das manifestações de 2013, já que a origem de todo aquele movimento foi a discussão sobre o espaço público e o direito de uso desses espaços, a partir da polêmica sobre o aumento da tarifa de ônibus. “O Brasil é 85% urbano. Vivemos os problemas das cidades que não as atendem, que não são tão acessíveis quanto deveriam. É uma questão que afeta diretamente a vida das pessoas.”

Na visão do jornalista e repórter especial da Folha de S. Paulo Raul Juste Lores, o que se vive agora é justamente uma ressaca do “star system”, dessa produção dos super arquitetos que de alguma maneira abusaram do poder, de orçamentos e de privilégios, ao construir o que quisessem, sendo que muitas dessas coisas não fizeram bem às cidades onde eles trabalharam. Ele avalia que, apesar dessa retirada das grandes estrelas da arquitetura, a arquitetura vive um momento bastante bom. “A gente vai falar menos de um bilhão, que no final vão custar dois bilhões, e se é melhor usar titânio ou outro material, e mais da interação com as cidades.”

Segundo Lores, está havendo o que se chama de a grande inversão. “Nos anos 40, 50 e 60 e 70, por mil razões, desde os soldados que voltaram da segunda guerra até o patrocínio da indústria automobilística de Detroit, às batalhas raciais dos anos 60, houve um êxodo, das famílias de classe alta, da maioria branca das cidades americanas, que foram morar no subúrbio.  A ideia da casa com quintal, cada americano tinha quatro ou cinco filhos aos 25 anos de idade, um emprego para a vida toda e só se encontrava com os demais no shopping center ou para assistir a algum esporte. O encontro entre classes sociais era muito, muito reduzido. Esse país está desaparecendo. O emprego para o resto da vida desapareceu. A família de cinco filhos com um único casamento desapareceu. Se você muda de emprego a cada dois anos, se quer ficar perto da sua turma, se demora a se casar e não tem mais cinco filhos e prefere andar de bicicleta do que de carro, o centro da cidade é mais sexy, é mais atraente.”

Nos Estados Unidos, país que é a maior economia do mundo, que agora está  crescendo e onde há um presidente revigorado pela economia e que por isso  pode cumprir promessas adiadas por anos, esse é o debate do dia: como  melhorar os centros das cidades, uma vez que todo mundo quer morar neles.  Diz Lores: “O último shopping construído nos EUA foi inaugurado em 2006.  O que só comprova que estamos tarde nas tendências, mas tomara, já que a  gente copia tanta coisa erra dos EUA, acho que tá na hora de copiar pelo  menos alguns debates interessantes.”

O jornalista falou ainda sobre a influência dos arquitetos junto ao poder público, algo razoavelmente comum no mundo, mas não no Brasil. “A  Olimpíada de Tóquio tem um arquiteto chefe, existe esse cargo, que é  ocupado pelo Tadao Ando. O Obama criou o cargo de conselheiro de  arquitetura, um cara que sugere pra ele onde e como investir. Por exemplo,  todas as embaixadas americanas têm de passar por concursos de arquitetura  para deixar de parecer bunkers assustadores. Londres durante muito tempo o  prefeito teve seu conselheiro de arquitetura, alguém fora da política municipal, que não precisava ser amigo de vereador  e que ia dizendo o que dava certo e o que dava errado. A China que foi quase um playground para os arquitetos nos últimos quinze anos, porque, ao contrário do Brasil, ela percebeu que a arquitetura poderia mudar a imagem do país perante o mundo. E houve muito esbanjamento, e houve gastos e obras e projetos totalmente desnecessários. Hoje o presidente da China Xi Jinping fala de arquitetura, critica o prédio da CCTV do Rem Koolhaas, e isso mesmo num país que chegou à urbanização décadas depois da gente. O Wang Shu, chinês vencedor do Pritkzer, fala nos jornais e na TV, normalmente crítico ao que se constrói.”

Projeto do estádio nacional de Tóquio para as Olimpíadas de 2020, de autoria de Zaha Hadid: a proximidade entre arquitetura e política levou ao questionamento dos custos altísssimos e, em seguida, ao  cancelamento da obra

Projeto do estádio nacional de Tóquio para as Olimpíadas de 2020, de Zaha Hadid: proximidade entre arquitetura e política levou o governo a questionar os custos e cancelar a obra

Segundo ele, “quase sem exceção os políticos brasileiros, de direita ou de esquerda, não têm o menor interesse em arquitetura e basta ver como eles moram. Esse é um grande problema. Quando a gente tem uma elite pouco sofisticada, que não está nem aí para a arquitetura, a gente vai pagar esse preço. A gente teve grandes oportunidades de melhorar a qualidade de vida da população  através da arquiteutea, grandes investimentos de infraesturua, metro, aeroportos, mcmv, com raras exceções a arquitetura foi convidada a participar. A gente gastou quase uma verba chinesa onde a arquitetura estava ausente. Fica sempre aquela coisa de a empreiteira x, ‘meu sobrinho que mexe com arquitetura’, é um escândalo que nós tenhamos o Paulo Mendes da Rocha e duvido que ele tenha sido ouvido pelo governo municipal, estadual ou federal nessas milhares de obras feitas nos últimos anos”.

Ironicamente, diz ele, o Brasil foi um dos poucos do mundo que falou: ‘Arquiteto, construa a capital’, um dos auges dos modernismo. “Equívocos ou não nós permitimos que fossem construídos. Demoramos demais para perceber que as estações de metrô eram mal projetadas, que todos os estádios da Copa iam ter a consultoria de uma mesma empresa alemã e que, com exceção do Lelé, os próprios arquitetos demoraram para criticar o Minha Casa Minha Vida. A mídia ficou muito tempo discutindo cerâmica e janela, sem pensar na cidade. Estamos muito crus. A maioria das pessoas nem liga, acha que o arquiteto desenha o prédio, mas não pensa na distância de um prédio para outro prédio, que é por onde as pessoas andam e passeiam. Isso está ausente”.

Para ele, o Brasil não é a China nem a Índia, que só agora passam por processos de urbanização, tampouco é os EUA. “O Brasil já é um país mais urbano que os EUA e que quase todos os países da Europa ocidental, somos um país de cidades. As cidades brasileiras em muitos sentidos ainda são as dos anos 1980, onde as pessoas moram mal, se locomovem mal, perdem o dia todo no trânsito, e a gente não sabe o que fazer com elas. Há o arquiteto que diz: com política eu não me misturo, e por outro lado há o político que adora não ter nenhum arquiteto por perto. Temos uma mídia que normalmente não tem a menor ideia do assunto. Quando há uma mídia que não consegue decodificar esse assunto para o seu leitorado, políticos que estão em negócios outros que não de melhorar a cidade e arquitetos falando para a sua própria classe, a gente não tem um debate influente.A gente tem uma obrigação como cidadãos de colocar a cidades o urbanismo no debate. Agora a economia está indo mal, a política corre o risco de virar algo nebuloso, sempre se corre o risco de achar que as cidades são menos importantes. E não são.”

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