Lago Paranoá perde puxadinhos de luxo, reflexo da Lava Jato

Vista aérea do Lago Paranoá, em Brasília, com a ponte JK ao fundo

Vista aérea do Lago Paranoá, em Brasília, com a ponte JK ao fundo

Dez mil pessoas já confirmaram presença no Isoporzinho na Orla do Povo, evento criado no Facebook para celebrar a nova fase do Lago Paranoá, em Brasília. Desde ontem, tratores e funcionários do governo do Distrito Federal têm retirado cercas, desmontado quiosques, derrubado puxadinhos usados como academias, fatiado campos de futebol e aterrado piscinas.

Essas áreas de lazer particulares ocupavam um espaço público ilegalmente incorporado às mansões e aos terrenos localizados às margens do Paranoá. Por lei, os proprietários deveriam ter deixado uma faixa de 30 metros entre o lago e suas residências, aberta para ser usada por qualquer pessoa. Na prática, o acesso foi impedido e as construções particulares avançaram até a beira do lago ao longo de 80 quilômetros de orla. O primeiro trecho reformulado é um dos mais nobres de Brasília, a “Península dos Ministros”, no Lago Sul, onde ficam as residências do presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), do presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), e do ministro da Fazenda, Joaquim Levy. Nos próximos 60 dias, 37 lotes perderão a faixa de 30 metros à beira do lago. Ao todo, 439 imóveis serão atingidos.

Ninguém acreditava que esse dia chegaria. A abertura da orla ao público tramitava na Justiça há dez anos, desde que o Ministério Público do Distrito Federal entrou fcom uma ação. Embora uma sentença favorável à abertura tenha saído em 2011, nenhuma palha foi movida para readequar a área ao uso público.

Os louros por ter tornado a decisão uma realidade estão sendo intensamente disputados e devem acabar divididos entre o governador  Rodrigo Rollemberg (PSB) e o judiciário, na figura do ministro Napoleão Nunes Maia Filho, do Superior Tribunal de Justiça (STJ), que extinguiu uma ação com a qual a Associação dos Amigos do Lago Paranoá (Alapa) tentava impedir a demolição de seus puxadinhos irregulares.

Percebe-se que episódios como o Mensalão e a Operação Lava Jato indicam haver mudança cultural em curso com potencial para interferir na relação dos brasileiros com os espaços onde vivem. O parque a ser inaugurado neste domingo na orla do Lago Paranoá marca o fim de uma era da mesma maneira que as prisões de políticos e executivos envolvidos no Petrolão. Agora, cabe aos ricos e poderosos retirarem suas churrasqueiras e campinhos dos espaços em que todos têm o direito de usufruir. Cabe também aos frequentadores zelar pelo novo parque e assim comprovar que espaço público não é aquele que não pertence a ninguém, mas aquele que pertence a todos.

 

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