“Ônibus rápidos servem para levar pobres para longe mais depressa”, diz urbanista

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A exemplo de São Paulo, cuja frota cresceu 76% na última década, Recife assistiu a um grande crescimento da presença de carros nas ruas, de 93% (dados referentes ao período de 2001 a 2012 e divulgados pelo Observatório das Metrópoles). A piora do trânsito fez ganhar força um antigo projeto, agora readaptado, para servir de via expressa. Batizada de Via Mangue, a obra foi iniciada em abril de 2011 e está prevista para ser entregue em abril deste ano (saiba mais).

Enquanto alguns prefeitos tentam equacionar o aumento da frota tornando os ônibus mais velozes, como o paulistano Fernando Haddad (PT), outros, como o recifense Geraldo Júlio (PSB), apostam na criação de vias para desaguar automóveis.

Segundo o urbanista recifense César Barros, a resposta não está em nenhum dos dois caminhos, e sim no planejamento urbano.

 

O que tem sido feito para melhorar o trânsito?

Os governos trabalham em função da demanda, não da oferta. E a demanda é sempre ultrapassada. Por conta disso há superposição de linhas, viadutos e túneis desnecessários e linhas de metrô feitas sem planejamento. Se as cidades fossem planejadas com base na oferta de infra estrutura básica de mobilidade para todo o território, teríamos centros desenvolvendo-se em torno dos corredores de transporte e seus raios de abrangência. Consequentemente, haveria cidades mais compactas, com maior racionalidade na escolha dos tipos de transporte pelos habitantes. O trânsito seria melhor e a qualidade de vida também.

E quanto aos BRTs (sistema de ônibus rápido) e os corredores de ônibus? 

Ônibus rápido causa segregação. Ele apenas garante que o pobre chegará bem longe mais rápido. Metrô idem. A qualidade do transporte público não está na velocidade, mas em dois outros quesitos: previsibilidade e conforto. Você tem de ter certeza de que vai passar e a que horas. Não precisa andar rápido, nem ônibus nem metrô nem carro. Uma velocidade de 30 a 40 quilômetros por hora para os veículos urbanos é mais do que suficiente.

Como os carros passaram a ocupar tanto espaço nas cidades?

Há hoje uma corrida para comprar carro tanto por quem precisa e quanto por quem não precisa. A Via Mague, projeto polêmico do Recife, não foi projetada para comportar ônibus, bicicletas nem pedestres. Está pautada apenas no uso do carro que, como se sabe, é como o oxigênio: ocupa todos os espaços possíveis. Se não forem oferecidas alternativas, chegaremos a um colapso em dez anos.

Como lidar com essas imensas frotas urbanas?

Sou contrário à restrição. É preciso gerir o espaço público democraticamente. Rua não é lugar de carro parado, isso é uma forma de subutilizar a via. Deixar de usar o carro não pode virar religião. Temos é de defender cidades inclusivas.

Qual seria o sistema viário ideal?

A rua ideal é aquela em que as crianças podem ir para a escola em seus velocípedes. Basicamente seriam necessárias vias com mão e contra mão que comportassem duas pistas pelas quais circulassem carros e ônibus. Vias largas incentivam a passagem de motoqueiros, que tentam costurar entre os carros. O sistema ideal oferece vários tipos de transporte integrados, incluindo percursos a serem feitos de bicicleta e a pé. Há pouco tempo as pessoas fumavam nos aviões e ninguém usava cinto e segurança. Sempre é tempo de mudar maus hábitos.

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